A Igreja prega que atos homossexuais são pecaminosos, mas tendências homossexuais não são.
A
Igreja Católica precisa ser menos severa em seu julgamento dos
homossexuais e, embora continue a se opor ao casamento gay, deve acolher
os filhos de casais gays à religião com igual dignidade, afirmou na
quinta-feira (26) um documento do Vaticano.
Um documento de
trabalho de 75 páginas, preparatório para o sínodo (encontro de bispos)
que deve acontecer em outubro no Vaticano para discutir questões de
família, também diz que a Igreja, que conta com 1,2 bilhão de fiéis,
precisa se tornar menos exclusiva e mais humilde.
O documento,
conhecido pelo nome latino "Instrumentum Laboris", também ressalta a
ampla distância entre a doutrina oficial da Igreja quanto a questões de
moralidade sexual e sua aceitação e compreensão pelos fiéis.
O
texto se baseia nas respostas a um questionário de 39 perguntas
distribuído a dioceses de todo o mundo antes do sínodo. Pela primeira
vez, na preparação para uma reunião como essa, o Vaticano solicitou aos
bispos que circulassem amplamente a pesquisa junto aos padres das
paróquias, e que os padres solicitassem as opiniões de seus fiéis.
A
posição tradicional da Igreja quanto à homossexualidade em alguns casos
resultou na exclusão de filhos de homossexuais das atividades da
Igreja. Embora o documento não sinalize nenhuma mudança imediata na
condenação da Igreja a atos homossexuais e em sua oposição ao casamento
gay e à adoção de filhos por homossexuais, a linguagem empregada é
perceptivelmente menos censória e mais compassiva do que a de passadas
declarações do Vaticano.
O texto afirma que, embora os bispos
mantenham sua oposição a uma "redefinição" do casamento pelos governos
ao permitirem uniões homossexuais, a Igreja precisa encontrar um
equilíbrio entre seus ensinamentos sobre a família tradicional e "uma
atitude respeitosa e menos severa no julgamento dessas uniões".
A
frase ecoa as famosas palavras do papa Francisco sobre os homossexuais,
pronunciadas no avião que o transportava do Brasil de volta à Itália em
julho passado: "Se alguém é gay e está buscando o Senhor, e tem boa
vontade, quem sou eu para julgá-lo?"
Os bispos discutirão o texto
em outubro e podem fazer recomendações de mudanças nos ensinamentos da
Igreja, sobre as quais o papa decidirá.
Como Francisco tem uma
atitude mais conciliatória, muitos católicos esperam que ele esteja se
preparando para rever a opinião da Igreja em alguns temas, como a
situação de católicos divorciados que, por isso, não podem receber a
comunhão, por exemplo.
MUDANÇA DE TOM
No
passado, o Vaticano se referia à homossexualidade como "intrinsecamente
desordenada" e parte de um "mal moral intrínseco". A Igreja prega que
atos homossexuais são pecaminosos, mas tendências homossexuais não são.
O
documento apontou que diversos dos católicos que responderam ao
questionário sentiam "certa inquietação diante do desafio de aceitar
essas pessoas com espírito misericordioso e ao mesmo tempo se ater aos
ensinamentos morais da Igreja".
"No entanto, quando pessoas que
vivem em uma dessas uniões solicitam o batismo de uma criança, quase
todas as respostas enfatizam que a criança deve ser recebida com o mesmo
carinho, ternura e cuidado dado a outras crianças", afirma o texto.
Embora
funcionários do Vaticano tenham enfatizado que os ensinamentos da
Igreja contra as atividades homossexuais não mudariam por pressão da
opinião pública, o documento disse que "muitas das respostas" apelavam
por "estudos teológicos em diálogo com as ciências humanas a fim de
desenvolver um olhar plural sobre o fenômeno da homossexualidade".
VIDA PRIVADA
O
documento reconheceu que muitos católicos têm compreensão insuficiente
dos ensinamentos da Igreja sobre questões como o controle da natalidade,
homossexualidade, divórcio, segundos casamentos, coabitação e outras
questões relacionadas à família.
"Por outro lado, muitos dos
entrevistados confirmaram que, mesmo quando os ensinamentos da Igreja
sobre o matrimônio e a família são conhecidos, muitos cristãos têm
dificuldade em aceitá-lo na sua totalidade", diz o texto.
De acordo
com o documento, uma "vasta maioria" dos católicos considera que "a
avaliação moral de métodos contraceptivos é geralmente entendida como
uma intrusão na vida íntima do casal e uma restrição ao livre arbítrio".
Segundo
o documento, padres insensíveis, a vida luxuosa de clérigos, o
escândalo de abusos sexuais e uma cultura moderna moralmente permissiva
dominada pelos meios de comunicação de massa são as causas para que um
grande número de católicos já não vivam suas vidas privadas de acordo
com os ensinamentos da Igreja.
O documento diz ainda que
explicações insuficientes, homilias ruins e padres mal preparados, por
vezes, parecem contribuir para esse abismo entre teoria e prática.
O
texto afirma que os católicos de todo o mundo que responderam as
perguntas expressaram preocupação com a possibilidade de que os abusos
sexuais de padres contra crianças tenham enfraquecido
"significativamente" a credibilidade moral da Igreja, especialmente nos
Estados Unidos e na Europa.
Fonte: Folha de São Paulo (adaptado)

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